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“Fomos feitos para a dor. As lágrimas são para o nosso coração o que é a água para os peixes." (Gustave Flaubert)
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  • 11/05/17--16:41: ULTRAMAN (Hayata)

  • Boa noite a todos.
    Sábado e domingo foram dias extremamente exaustivos para mim com obrigações fora de casa; desta feita, sento-me aqui novamente sem energias para escrever e tudo indica que a semana que entra também será cansativa. Fui convidado para um evento geek, vou esperar confirmação para postar aqui os detalhes.

    Eu queria falar mais detidamente sobre como o Ultraman é especial para mim mas terá que ficar para uma ocasião mais propícia. No momento deixo esta arte e a promessa, se Deus permitir, de postar textos mais inspiradores proximamente.


    Até lá, fiquem com meu abraço!

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  • 11/12/17--16:31: TERCEIRO JAB POP.

  • Esta semana participei de mais um evento Geek, foram dois dias de papo agradável com os artistas que publicam na terra quente de Pernambuco. O público não foi lá muito grande mas valeu por eu ter saído mais uma vez do meu estúdio e mostrar minha cara feia num evento. Bacana! Tendo mais eu pretendo ir.

    Felizmente não tiraram fotos minhas.

    Um beijo a todos, boa semana e vamos ver se no próximo domingo eu volto aqui com meus velhos textos!

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    Boa noite a todos!

    Amadas e amados, pra mim não tem nada mais constrangedor do que ver e ouvir a mim mesmo nesses vídeos. Soo patético. Enfim, não tenho como mudar minha aparência nem minha voz, só me resta aceitar.
    No entanto muitos parecem interessados, querem ver fotos e vídeos do cara que desenha todas essas coisas. Então vá lá.
    Este primeiro vídeo é do canal Orbita Geek, foi feito na Feira Asgardiana que aconteceu no dia 21/10/2017. Apareço lá pelos 15:00 do vídeo, mas ele todo é divertido, tem a Michelle Ramos, Luciano Félix, Thony Silas e vários outros artistas.



    Este outro foi feito durante o Terceiro JAB POP. Falo pouco (ainda bem).




    Até semana que vem, se Deus quiser, pessoal!!!!

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    O calor chegou, finalmente; não bateu na porta, chutou-a com a violência que lhe é peculiar e se instalou em quase todos os aposentos mostrando com fúria quem é que manda (eu digo quase todos os aposentos porque o irmão mais novo da Vera, que mora conosco, tem ar condicionado em seu quarto). É de novo o período que temos que deixar o ventilador ligado 24 horas por dia, onde molhamos o travesseiro de suor e a fadiga no corpo é onipresente.

    A três noites atrás faltou luz. Demorou pra chegar, isso não é novidade mas eu pensei: caramba! não tenho mais saco nem para reclamar!

    As editoras com quem trabalho deram um tempo, parece aquela mulher que quer te dar um fora e vem com a conversa de ficar um pouco distante para melhor avaliar a situação e ver se vale a pena continuar.
    Pra não dizer que não estou totalmente inativo, labuto em umas encomendas para um cliente específico, um médico que parece ser muito fã da minha arte. Isto tem quebrado um galho imenso. Devem haver muitos fãs por aí, mas a maioria não deve ter dinheiro.

    Nos intervalos vou esboçando as páginas de uma nova aventura do Zé Gatão. Faço para mim mesmo, como uma terapia, para não ser engolido de vez pela depressão. Como vou publicar isto depois que estiver pronto? Não tenho a menor ideia, depois penso a respeito.

    Tem surgido eventos de quadrinhos aqui e acolá, em shoppings, feiras de livros, faculdades. Não posso ir em todos, tempo e grana. Faço um esforço para comparecer naqueles onde sou formalmente convidado.

    Esta semana recebi o PDF em baixa resolução para avaliação do Nekrópolis, antologia de horror onde contribuo com uma curta história de zumbis. Livro muito legal a ser publicado em breve. Há uma variedade muito grande de autores, alguns já viraram lenda no cenário das HQs nacionais, como Arthur Garcia, Mozart Couto, Eugênio Colonnese, Rodval Mathias entre vários outros que desconheço, a maioria gente nova no pedaço, eu creio.

    E deve vir a público em breve O BICHO QUE CHEGOU À FEIRA, uma HQ em que desenho alguns capítulos ao lado de outras feras do traço, como Allan Alex e Alex Genaro; já recebi pelo correio o contrato, assinei e mandei de volta. Agora é esperar para ter o livro nas mãos. Sobre estas duas edições eu pretendo postar aqui quando saírem.

    Ainda nenhuma notícia da biografia do Edgar Allan Poe e nem do NCT. Muito menos Caim e Abel, já que o editor que encomendou encerrou suas atividades, este material deve ter ficado no limbo.

    Abaixo o estudo que fiz para o Ultraseven.


    Um amigo me falou dia desses que não sabe como consigo viver assim: um mês de cada vez, sem a certeza de como será o próximo. Na verdade eu também não sei. MAS DEUS SABE.







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    Se pararmos para pensar bem a minha produção de histórias em quadrinhos é muito pequena, os livros que ilustrei ou capas que criei para revistas foram bem maiores. Teve, claro, os cinco álbuns do ZÉ GATÃO que sempre faço questão de sublinhar, afinal são meus filhos gerados da necessidade da minha alma de transmitir uma visão de mundo, mas fiz várias histórias eróticas no início dos anos 2000 que a maioria dos fãs do meu traço desconhece. Eram HQs que eram encomendadas e me davam total liberdade de criação, até o número de páginas ficava ao meu critério. Aproveitei para dar vazão à minha criatividade, este tipo de história sempre tinha um tema específico, com elementos quase sempre voltados para o humor, como se quem as projetava tentasse se desculpar por fazer, então se escondia atrás do véu da sátira - o cinema com a pornochanchada era basicamente isso, tirando onda com a Branca de Neve e os Sete Anões ou Chapeuzinho Vermelho - os catecismos do Zéfiro, hoje lendários, sequer tinham um enredo.
    Um detalhe interessante é que os autores - grandes desenhistas da geração passada - não assinavam seus nomes ou inventavam um pseudônimo.
    Eu para sair do lugar comum tentava narrar histórias de cangaceiros, homens da caverna, alguma ficção científica mequetrefe ou enredo policial e em algum momento eu enfiava a cena de sexo na trama, afinal era para isto que eu estava sendo pago.


    Isto era publicado em revistas sem periodicidade, com papel vagabundo, e não raro com erros de digitação nos balões. Os títulos eram variados: Pervers, Panteras, Seximan e outros tais.


    Com a chegada da internet publicações de sexo em bancas perderam sua força. Dois bons quadrinhos meus permanecem inéditos (um deles o tema era o das mil e uma noites), já falei sobre o assunto aqui no blog, não lembro em qual postagem.


    Penso que essas minhas publicações sejam bem difíceis de achar, talvez em sebos, quem sabe?

    Planos para reunir todo este material num álbum bem caprichado já existiu por parte de um editor, mas se esbarra na questão de dinheiro para levar a coisa adiante. Eu, pra falar a verdade, não me movimento e existem dois motivos para isto: Primeiro, é coisa do passado e eu gosto de pensar no futuro, em batalhar coisa nova; segundo, não sou muito fã desta fase, meu traço era bem ruinzinho,  pra ser sincero.

    É isso aí queridos e queridas, até semana que vem, se o bom Deus permitir.

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    Para quem lê com um pouco de atenção as coisas que escrevo aqui deve imaginar que se eu não tenho lá muita predileção por olhar meu rosto no espelho deve imaginar também que não gosto do meu aniversário. Sim, isso mesmo. Aliás, não ligo. As pessoas dão uma grande importância a isto e acho até que estão certas, afinal um ano vivido tem mesmo que ser comemorado, mas eu na verdade não vejo muito sentido em tudo isso. Era pra eu ter morrido (com absoluta certeza) umas duas vezes, uma delas a quase 50 anos atrás, me marcou tanto que até hoje me lembro. Para que e porque (que e porque tem acento circunflexo neste caso? sou ruim de português) estou vivo até hoje só Deus sabe.

    Sempre disse para minha mãe não fazer festa (não tenho lembranças de festas durante os anos 70, só me lembro de medo e tristeza). Durante os anos 80, o dia cinco eu tirava para refletir um pouco, faltava no trabalho sem nenhuma justificativa e caminhava pela manhã no Parque da Cidade em Brasília, pensava na vida e procurava ficar a sós com Deus. Naquela época isso era possível num parque agradável como aquele, hoje não sei. Era um dia que eu tirava para mim, ia ao cinema e se possível fosse, comprava um livro. Mas minha mãe não deixava passar batido, sempre preparava um almoço especial, geralmente lasanha, que gosto muito.
    No SENAC, onde trabalhava, eu tinha alguns conhecidos que eram pessoas agradáveis, mas a maioria me ignorava como se eu fosse um inseto, mas no dia do meu aniversário vinham me cumprimentar - hipocrisia sem pre me deu nojo - uma amiga minha trabalhava no setor de pessoal e eu pedi a ela para tirar meu nome da lista de aniversariantes que ficava no mural da empresa, aí acabou a palhaçada.

    Ao me aproximar dos 40 decidi comemorar minha data, convidar amigos mais próximos e passar alguns momentos conversando, comendo salgadinhos e bolo. Mas esta minha atitude não durou muito.

    Vera sempre faz um belo almoço neste dia, assim como sobremesa e um bolo especial. Ok, se isso agrada a ela.

    Meu último níver na semana que passou foi legal, comida gostosa, ligação dos familiares e muitas mensagens no Facebook, tanto que não consegui responder um por um como gosto de fazer.


    O amigão e ótimo desenhista, Gilberto Queiroz, me homenageou com este belo desenho que diz muita coisa. Gratíssimo, Gilberto!

    Até a próxima, se Deus permitir, folks!

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    Ed Palumbo era desenhista, tentava pagar suas contas com aquilo que conseguia desenvolver no papel. Não era uma vida fácil, nada na vida dele era fácil, mas ele sabia que tinha gente muito pior, pessoas morrendo de câncer ou vivendo em países com guerra civil, tentava se consolar com isto. Paulista de nascimento, farto da vida infrutífera e da agitação da selva de pedra mudara-se para Brasília onde residia numa quitinete da comercial 202 norte.

    Morto de cansaço ele acordou ao som do telefone. Levantou-se para atender, o sol na janela da pequena sala anunciava que deveriam ser mais de 9 horas da manhã.
    - Alô?
    - Ed?
    - Sim?
    - É o Strumer, do Periódico do Planalto.
    - Ah, sim, tudo bem?
    - Tranquilo. Incomodo?
    - Não.
    - Seguinte, não vamos poder publicar aquela matéria que fizemos sobre aquele seu álbum de quadrinhos, infelizmente.
    - Tudo bem.
    - Olha, seu trabalho é ducaralho, mas tenho que te dizer, editores de jornal não se importam com tiros na cabeça e tripas espalhadas no asfalto, mas se incomodam muito com picas e bucetas, tá me entendendo? O teu trampo tem todas estas coisas, então não vai rolar.
    - É uma pena, mas tudo bem, agradeço por você ter tentado.
    - E olha que tentei mesmo, cara, sou teu fã! Quem sabe numa próxima?
    - Pois é, quem sabe?
    - Valeu, cara! Abração e sucesso com teu gibi!
    - Obrigado!

    Ed estava sedento, a cabeça doía, foi à geladeira e bebeu um copo de água, sentia o corpo pesado. Tornou a deitar-se. Estava frustrado, precisava que seu álbum de quadrinhos vendesse bem, o Periódico do Planalto era o tipo de veículo que se dissesse que merda fazia bem à saúde os leitores iriam correndo comer. O sono chegava de mansinho quando ouviu batidas na porta.
    Levantou da cama e pôs uma camisa.
    Atendeu; do lado de fora uma loura de olhos verdes sorria.
    - Você é o Ed Palumbo?
    - Sim.
    - Amo seu trabalho, seus desenhos, seus gibis, amo você! Uma amiga me deu seu endereço. Poderia assinar este seu livro?
    Ela estendia para ele sua primeira coletânea de tiras, lançada muitos anos antes, um trabalho fraco, mas que lhe deu uma passagem para o reduzido mercado das artes gráficas no Brasil.
    - Claro! Gostaria de entrar?
    - Oh, sim, obrigada!
    Ao passar por ele, notou seu corpo escultural, ela usava um vestido de noite, verde brilhante, apertado.
    Entregou para ele o livro e foi quando Ed notou que ela tinha pinças de caranguejo no lugar das mãos. Ele não fez caso disso e começou a autografar o tomo.
    A loira caminhou até uma estante que havia na minúscula sala e se admirou:
    - Nossa! Quantos livros de arte bacana você tem aqui! E estes são os que você publicou?!? Meu Deus, que relíquias! Amo seus trabalhos!
    Ed reparou que a mulher tinha tentáculos de polvo como pernas e retirou seus livros da estante e começou a devorá-los com um bico cheio de serras, com uma fome louca e fazia um barulho horrível ao comer, ela parecia aqueles dinossauros alados. Neste ponto, Ed acordou. O barulho que ouvia era o de uma distante britadeira que vinha de fora.
    Porra, que sonho escroto! pensou. Não dá pra dormir mais.

    Fazia calor. O ventilador de teto estava com defeito e girava lento. Tinha fome mas estava com preguiça de ir na padaria da SQN 203 traçar um misto quente com vitamina de mamão e laranja, restava apenas comer alguns biscoitos recheados que tinha no armário da cozinha e tomar um copo de leite.
    O telefone tocou.
    - Sim?
    - Senhor Palumbo?
    - Ele.
    - É da Imobiliária Novo Horizonte, tudo bem?
    - Tudo.
    - O seu aluguel está atrasado.
    - Vocês disseram isto ontem.
    - Bem, quando o senhor poderá pagar?
    - Eu disse ontem e anteontem. Acertarei semana que vem com os devidos juros.
    - Ah, certo, então. Desculpe incomodar e tenha um bom dia.
    - Ok!

    Palumbo sabia que o bonde da felicidade não passaria pela rua dele, se passou um dia ele não percebeu. Tinha 55 anos e havia avançado pouco na vida. Um tanto mais de dinheiro não faria mal,  só para ele não ter que passar por certos apertos. Pensando nisto ele discou um número.
    Depois do que pareceu ser uma eternidade uma voz apática atendeu.
    - Zezão?
    - Ele mesmo.
    - É o Ed Palumbo.
    - Hei, falaí grande artista! Mito dos desenhos!
    - Zezão, quando você vai pagar pela arte que me encomendou?
    - Já terminou a nova que te pedi?
    - Ainda não, mas você não me pagou pela anterior, tenho que quitar meu aluguel e abastecer minha geladeira, cara!
    - Claro! Faz o seguinte: termine esta e eu acerto logo as duas no início da próxima semana. Vai entrar uma grana na minha conta e eu transfiro para você.
    - Ok, combinado. Até!
    - Falou, se cuida!

    Se espreguiçou, preparou lápis, pinceis e sentou-se na prancheta. A arte encomendada não era difícil mas ele se sentia pouco motivado. Molhou o pincel na água e já ia colher a tinta quando a campainha soou. Ele se levantou e foi abrir. Era o Taveira.
    - Diz aí, Ed! E foi entrando.

    Taveira era um cara alto, ruivo, magro, difícil de especular a idade, devia ter de uns 25 a 30 anos, usava sempre roupas encardidas e cheirava como uma pessoa que não tomava banho a muito tempo. Sempre descabelado e mal barbeado. Nunca ria e falava sempre com voz monótona.
    - Esse mundo é podre! Disse.
    - É mesmo, respondeu Ed, se sentando para ver se conseguia trabalhar enquanto o Taveira murmurava suas besteiras. Taveira sempre dizia que odiava as pessoas.
    - Tenho ódio das pessoas!
    - Sei.
    - Ontem eu descia as escadarias da rodoviária. Todo mundo com pressa e lá estava aquela mulher gorda, parada nos degraus, falando no celular e atrapalhando quem estava com pressa e queria passar. Tive vontade de dar um chute bem forte no cu gordo dela e vê-la rolar degraus abaixo!

    Palumbo passava o pincel com as cores sobre a superfície do desenho como quem não escutava aquela litania monótona sobre como as pessoas são frias, covardes e inócuas e como a arte poderia salvá-las. Taveira desenhava bem, tinha um traço minimalista bem interessante, criava umas tiras que traduziam seu pseudo desprezo pela humanidade e em seguida queimava tudo. Ele, felizmente nunca sentava, só falava sem parar, olhava Ed pintar e nunca fazia comentário, nenhum elogio ou crítica. Para ele só havia uma pessoa interessante nos quadrinhos, Alan Moore, o resto era merda, até mesmo Eisner. Vivia fazendo paralelo com Watchmen e a filosofia nietzschiana, sempre o mesmo repeteco,  tirando meleca do nariz e limpando na camisa.
    - Um dia vou pegar uma arma e dar uns tiros em algumas pessoas, mas só em gente escrota, só em filho da puta!
    - Tenha calma, Taveira. Relaxa, cara, sinta o sol, o vento, não vale a pena se aborrecer. O mundo é complicado e a gente tem que se adaptar.
    - É, acho que cê tem razão. Bem, vou indo nessa!
    - Falou cara, não vou me levantar, não posso parar aqui, se esta cor secar antes da próxima camada, fodeu!
    O outro nada respondeu. Observou rapidamente os livros e os quadrinhos de Ed na estante como sempre fazia e saiu.

    Passava de uma da tarde e o desenhista sentiu fome. O telefone tocou mas ele não atendeu. Foi até a minúscula cozinha e pôs um pouco de água para ferver. Retirou da pequena geladeira um pouco de carne moída da véspera. Adicionou ketchup e botou pra esquentar. No ponto certo despejou uma caixinha de creme de leite e misturou tudo. A água fervia e ele jogou um macarrão instantâneo dentro. Em três minutos ficava pronto e ele despejou a carne moída em cima. Catou um suco de uva em pó de saquinho e diluiu numa pequena jarra de água gelada. Comeu enquanto assistia o noticiário. Tudo notícia fabricada, pensou.

    Antes de voltar ao trabalho alcançou o grosso volume de Crime e Castigo para ler pela quinta vez, um ótimo livro mas que capengava no arco final, ele tinha plena certeza que Dostoievski mudou o final para atender melhor o público. Ninguém estava livre de se vender para agradar os outros e assim obter mais sucesso.

    Começou a sentir sono quando o telefone tocou mais uma vez. Não fez caso. Pôs sua calça jeans, o tênis e vestiu uma camisa branca. Pegou uma sacola de roupas sujas que estavam num canto e saiu. O sol estava forte, mas de uma quentura agradável, as cigarras cantava dando à atmosfera um tom preguiçoso. Se encaminhou até a lavanderia e foi atendido pela mocinha dentuça e bunduda.
    - Olá! Nunca mais tinha visto o senhor!
    - Sim, muito trabalho e roupas sujas acumulando, sabe como é.
    - Imagino.
    Pagou o sinal, pegou o recibo e saiu. Passou pela banca de jornal da quadra. Deu uma vista pelas manchetes dos jornais e folheou alguns quadrinhos. Muita coisa havia mudado desde que ele lia super-heróis, O Superman não respondia mais aos EUA e sim a ONU, o Capitão América não era mais a sentinela da liberdade, mas um dedo duro da Hydra, o Thor tinha virado mulher, e quem usava o traje do Homem de Ferro era uma mulher negra. Porra, que tempos tristes! Pensou.

    De volta ao lar sentou-se para recomeçar o trabalho, eram 15 e 30. O telefone tocou. 
    - Alô!
    - Oi, Ed!
    - Fala, Ingrid! O que manda?
    Ela tossiu, em seguida parecia que bebia algo.
    - Eu e o Filho terminamos tudo.
    - É mesmo?
    - Não suportava mais as traições dele, aquele cheirador de cocaína miserável!
    - Entendo.
    - Ele que se foda com aquela banda de rock de merda dele.
    - Até que ele faz sucesso.
    - Cê gosta da música dele?
    - Nem um pouco; na verdade, não é que eu não goste, eu não ligo a mínima, aquilo não me diz nada!
    - Aquele viciado nojento!
    - Olha, Ingrid, desculpa, mas estou ocupado aqui!
    - Estava lendo o sua HQ, é muito boa!
    - Ok.
    - Tem um personagem lá que tem um pau bem grosso! Ouvi dizer que os artistas colocam muito de si mesmos em suas criações. Estava pensando em passar aí depois que eu sair do trabalho e constatar se é mesmo verdade.
    - Olha, não é uma boa ideia.
    - Não gosta de mim?
    - Não é isso, é que pretensamente eu sou um ilustrador e se eu não trabalhar não pago as minhas contas! E depois, você e o Filho já romperam outras vezes e voltaram, acho que desta vez não será diferente.
    - Você é uma pessoa estranha, Ed.
    - Muitos acham isso.
    - Gosto do seu jeito, a maneira como me olha, o Filho disse que você elogia meus olhos cor de mel. Você é um cinquentão muito charmoso. Sei que você não curte cigarro, prometo que seu eu for aí não vou fumar.
    - Um outro dia, talvez, hoje estou realmente muito atarefado.
    - Certo, me liga depois? Gosto de ouvir sua voz.
    - Sim, depois.
    - Beijo!
    - Até!

    Ed foi até a geladeira e bebeu o restante do suco.
    Sentou-se e continuou o trabalho. Tempos depois ouviu alguém gritar seu nome repetida vezes, foi até a janela e lá estava o PT.
    - Cara, desculpe berrar assim, mas não tinha certeza se tu tava em casa!
    - Sobe aí.

    Ed conheceu PT numa comic shop de Brasília e desde então ficaram próximos. Era um escritor de talento e nos últimos tempos tinha metido na cabeça - influenciado por Neal Gaiman - que queria ser roteirista de quadrinhos. Tinha umas ideias bastante interessantes. Ele vivia com uma mulher muito bonita chamada Yolanda, e segundo ele mesmo, doida e paranoica. Enquanto ouvia os passos do cara no corredor, Palumbo antevia a mesma conversa de sempre sobre a direita retrógrada e a má interpretação que faziam da obra de Marx, além de "papai disse isso ou papai falou aquilo".
    - E aí, gênio, o que anda aprontando? Caralho, isto está ficando sensacional!" Entusiasmou-se PT exibindo um largo sorriso com dentes enormes e ligeiramente projetados à frente. Ele parecia mesmo gostar das artes do Ed Palumbo. Um tempo antes ele criou um roteiro intrincado para uma HQ e queria que Palumbo fosse o desenhista. Pediu uns esboços de personagens para anexar ao texto e fez a defesa do projeto às editoras paulistas, a resenha enaltecia o talento do ilustrador como nunca fizeram antes e demonstrava ser bem sincero. Pena que o roteiro tenha sido recusado por todos, o material era muito bom.
    - Cara, não me conformo de você não ser aclamado como um dos grandes de todos os tempos!
    - Obrigado, PT, mas não exagera!
    - Não é exagero cara, eu tenho discernimento, sei que tu é foda na arte e escreve uns roteiros muito massa! Só não entendo como funciona o mercado editorial no Brasil, eu sei que você se esforça e vai à luta. Papai sempre me diz que as coisas não caem do céu, a gente tem que correr atrás e sei que você faz a sua parte.

    Ed sabia que aquele papo não levava a nada embora houvesse muita coerência no que o PT dizia; tornou a trabalhar enquanto o outro falava.
    - Pelo pouco que notei deste meio dos quadrinhos, existe muita panelinha, talvez se você fizesse parte de alguma delas...
    - Eu já tentei, meu caro, não gosto de clubinhos, mas houve um tempo na vida em que deixei de lado meus escrúpulos e fui a tudo que era evento e lançamento de HQs, tentei me enturmar com os fodas que fundaram academias de arte, conheci muita gente bacana, talentosa e esforçada. A maioria - é bem verdade - depois que conquista um espaço se acha uma estrela e fica babaca, embora o que produzam seja mais do mesmo, um padrão que se estabeleceu no mercado ianque, mas tem uma parcela que sabe que há espaço para todos e sempre há novidades a aprender, com estes fiz uma sólida amizade. Eles dão dicas de trabalho sempre que podem....se esta é uma panelinha...
    -Isso aí, cara, papai sempre disse que temos que correr atrás do sonho para vê-lo realizado. Do que você falou, sinto a mesma coisa no ambiente literário, o cara não é porra nenhuma, mas dá a sorte de publicar um livro bem criticado num veículo como a Folha de São Paulo e já se acha um Cervantes. E essa coisa de crítica é foda, basta um dizer que é legal e todo mundo copia sem nem ter lido a obra toda. Livros hoje em dia é escrito por uma equipe de pessoas e uma só leva o crédito.
    - Complicado, né? Disse Palumbo com um suspiro de impaciência.
    - E tem escritor que todo mundo ama sem nem ter lido a obra do cara, é o caso de Joyce, papai sempre diz que toda a unanimidade é burra.
    - Essa frase é atribuída a Nelson Rodrigues!
    PT explodiu em uma sonora gargalhada como sempre fazia quando achava graça em algo.
    - Isso é bem típico de papai, roubar a máxima dos outros como se fossem dele.
    Dizendo isso o PT enfiou a mão por dentro das calças - na traseira - e começou a coçar sofregamente.
    - Não repare, tem três dias que não tomo banho e minha bunda tá coçando!
    Ed fingiu que não escutou e continuou sua pintura.
    - Rapaz, essa noite foi difícil, Yolanda acordou durante a noite com um pesadelo e começou a gritar! Eu dizia: calma, calma, foi só um sonho! Mas nada dela se recompor, então veio um ataque violento - te falei que ela sofre de epilepsia, né? - Dei o remédio dela, mas desta vez foi forte a coisa!
    - Rapaz, sinto muito!
    - Ah, tudo ok, agora! Hei, vamos comer em algum lugar? Estou com fome! Papai não depositou grana na minha conta esta semana, mas eu ainda devo ter algum crédito.
    - Obrigado, PT, mas tenho mesmo que terminar esta ilustração.
    - Ok, então, vou nessa!

    Ed acompanhou o rapaz até a porta.

    Voltou à mesa mas não pegou nos pinceis. Toda aquela conversa trazia à ele uma crescente depressão. Tudo parecia inútil e sem sentido. Correr atrás do vento, enxugar gelo, não parecia fazer outra coisa na vida a não ser, à moda dos cães, girar em círculos tentando morder o próprio rabo.
    A tarde se avizinhava e ele foi a geladeira, tomou um copo de água e deitou-se um pouco. Cochilou pesado por uns 30 minutos, teria dormido mais se não fosse de novo o telefone.
    - Alô!
    - Fala Ed, tudo bem?
    - Quem é?
    - Cara, não reconhece mais os amigos?
    - Desculpe, não estou identificando a voz.
    - É o Lu Batata, cara!
    - Não lembro de nenhum Lu Batata.
    - Cara, assim você me magoa, nos conhecemos num workshop que você deu no ano passado no Memorial da América Latina!
    - Ah, sim, lembrei! Como vai?
    - Tô de boas! E tu?
    - Também, só ocupado, agora.
    - Entendi, cara desde que ficamos amigos meu traço melhorou muito, você vai ficar impressionado com meus desenhos, são poderosos!
    - É mesmo?
    - Sim, vou mandar para seu e-mail, ok?
    - Escute, não leve a mal, mas como sabe meu telefone e e-mail?
    - Foi o Peixeiro quem me deu.
    - Ah, sim, o Peixeiro. Ele nunca mais deu notícias.
    - Ele largou a vida de desenhista e virou caminhoneiro. Deve estar lá pelas bandas de Belém do Pará.
    - Ok, Batata, tenho que desligar.
    - Falou, gênio! Aguarde meus desenhos!

    Ed suspirou cansado. Se possível fora ele queria dormir por longuíssimo tempo.

    Colocou uma coletânea de Jazz dos anos 30 no computador  e trabalhou por mais uma hora ignorando o telefone que sempre tocava. Quase 20 horas, teve fome, saiu para comer algo numa lanchonete que tinha numa quadra próxima. A noite estava maravilhosamente estrelada.

    Voltando a seu apartamento ligou a tv, sapeou os canais e não tinha nada de bom passando. Deteve-se na globolixo onde um casal se esmurrava e em seguida se beijavam como se não houvesse amanhã. Novelas, ele já assistira este tipo de coisa no passado, num tempo onde as pessoas tinham algo a dizer. Ed detestava essas estrelinhas globais, pessoas vazias, ocas, sem estofo, com quilos e quilos de  mentiras e de maquiagem e tinturas de cabelos, pessoas que enalteciam umas às outras falsamente. Mercadores de ilusões baratas. As personagens nunca trabalhavam naquelas tramas e sempre tinham dinheiro, nunca ficavam a vontade em suas casas, nunca usavam bermudas e chinelas, dormiam maquiadas e acordavam como se tivessem vindos de um salão de beleza. Desligou o aparelho.

    Pintou seu desenho mais um pouco ouvindo Miles Davis. Parou. Fez um alongamento, em seguida cinco séries de flexões de braços, algumas abdominais. Ofegou. Estava velho, sem fôlego. Pra quê aquilo tudo? Ele não sabia, só para manter um ritmo, um hábito de vida, talvez. Foi ao banheiro, escovou os dentes e tomou banho.

    Sentou-se para terminar a arte. O telefone tocava. Não atendeu.
    Colocou sua assinatura no papel ainda úmido e olhou a arte de longe. Tinha ficado razoável. Mais uma obra terminada. Escaneou e enviou a pintura por e-mail. Sabia que teria que lutar para receber por ela. Com aquele cliente era sempre assim. Ele demorava mas sempre pagava.

    O telefone tocou novamente, ele desconectou da parede, desligou a luz e se deitou.

    Mais um dia havia se passado e ele tinha vivido. Fechou os olhos esperando o sono, se tivesse sorte,  nunca mais acordaria.

     







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  • 12/24/17--12:52: HAPPY CHRISTMAS!!!!

  • Aos leitores deste blog, UM NATAL REPLETO DE ALEGRIAS E BENÇÃOS DO ANIVERSARIANTE SOBRE SUAS VIDAS E DE SEUS FAMILIARES, são os votos deste vosso desenhista, cada dia menor!

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  • 12/30/17--15:19: HAPPY NEW YEAR!!!!!

  • A todos vocês que gentilmente acessaram este blog e continuam acompanhando minhas postagens, minha eterna gratidão!

    Desejo a todos um 2018 CHEIO DE REALIZAÇÕES, COM MUITA SAÚDE, GRANA E ARTE!

    DEUS ABENÇOE A TODOS!



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  • 01/08/18--17:17: ANO NOVO, HÁBITOS VELHOS.


  • Sim, o ano de 2018 já coloca o pé no acelerador, é dia 8 e parece que o rompimento foi ontem a noite. É sempre assim, ao findar de um calendário todo mundo reflete sobre o tempo que passou e promete a si mesmo acertar no alvo que não foi possível na temporada anterior, uns querem ser mais pacientes, tolerantes, menos apressados, outros prometem que vão fazer mais exercícios, que vão emagrecer, pensar mais antes de tomar decisões ou não pensar ao decidir....bem, a questão é que funciona apenas no começo, depois de uma semana - ou menos - começam a fazer as mesmas besteiras de sempre. Não adianta, o paraíso não é aqui, ele é utópico. Bem, pelo menos pra maioria das pessoas (é o que tenho notado ao longo da minha vida).
    Eu? Eu nunca me iludi com isto. Claro, não sou imune àquela magia de fim de ano ao abraçar uma pessoa querida e felicitá-la. Não consigo não fazer um balanço de tudo e ver no que posso melhorar a minha vida e mesmo sabendo que é apenas psicológico, eu tento recarregar as baterias e começar o ano novo com o pé direito. Uma coisa peço a Deus: bem aventuranças para minha família e saúde para fazer o meu trabalho e que trabalho não falte. Se a arte é mesmo necessária para não sermos esmagados pela realidade, como já proferiram alguns - e se arte é o meu ofício - eu quero continuar fazendo o melhor possível. De resto, que Ele me dê a minha porção acostumada, ter o que comer, beber, vestir e um teto sobre a cabeça e dou graças.
    2018 tem promessas de lançamento de obras minhas, O BICHO QUE CHEGOU À FEIRA (ok, não é só minha, mas minha participação nele é grande) é dado como certo. Já A VIDA E OS AMORES DE EDGAR ALLAN POE, continuo sem certezas. O NCT - NOVOS CLÁSSICOS DO TERROR parece que ainda vai demorar mais um pouco. Cozinho em fogo brando uma nova aventura de Zé Gatão, se consigo terminar este ano é uma incógnita, e se concluir, publicar é uma incógnita maior ainda. É ir batalhando sem esmorecer como sempre fiz; tropeçando sempre ao longo do caminho, mas sem nunca ficar deitado, choramingando derrotas. 

    Bem, é o que eu tinha para dizer nesta minha primeira postagem do ano (atrasada, era pra ter escrito ontem!). Vocês continuam comigo? Conto com isto.

    Beijos nas gatas, um abraço nos gatos e fiquem com os esboço para uma comissão (já realizada) do Fantasma.


    Até semana que vem, querendo DEUS!


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    Muito da nostalgia que eu tinha cessou, não penso mais com tanta frequência no passado, nem faço mais tantos planos para o futuro, sinto-me como se futuro não tivesse, o presente me obriga a focar nele, somente nele, em sobreviver ao dia e agradecer a Deus por conseguir chegar ao seguinte. Mas hoje, por algum motivo eu me lembrei de um incidente acontecido numa noite qualquer da primeira metade da década de 80.
    Rodrigo, o meu irmão caçula, ao desligar um fio de uma tomada, ficou agarrado ao mesmo levando um tremendo choque. Meu outro irmão, André (que hoje é médico), vendo-o naquela situação, chutou a tomada , arrancando o fio da fonte de energia. O pobre menino ficou com as mãos queimadas, cheias de bolhas; assim que soube do ocorrido eu o coloquei de "cavalinho" nas minhas costas e junto com minha mãe nos conduzimos até a emergência do Hospital de Base de Brasília, que ficava perto de nossa casa. Lá, ele foi bem atendido. Enquanto enfaixavam as mãos dele, vi deitado em uma maca, um cara sem camisa, só de bermuda, cheio de sangue e hematomas, o cara parecia sentir muita dor pois de quando em quando ele estrebuchava e gemia alto. Próximo a ele uma moça muito bonita e elegantemente vestida se mortificava. Perguntei a um auxiliar de enfermagem que passava por ali se ele sabia o que tinha acontecido com aquele moço. "Aquele cara? Ah, ele foi mexer com uma mulher acompanhada e o namorado dela, que é faixa preta de caratê, deu-lhe uma surra que o deixou neste estado, a bonitona ali é a noiva dele!" Fiquei boquiaberto com aquilo, eu pensei que ele havia sido atropelado! Mas na verdade não era uma surpresa, eu sabia que apenas nos filmes um cara leva um monte de porradas e só fica com um pequeno corte nos lábios e algumas escoriações.
    Certa vez, uma cara que eu conheci, tinha a mania de se meter em brigas por bobagem, numa ocasião ele se defrontou com um cara quieto, de baixa estatura e jeitão de índio; o baixinho deu-lhe uma surra tão feia que o meu conhecido até cagou nas calças, foi difícil socorrê-lo devido ao cheiro.
    Um outro, amigo de infância, a quem chamaremos de C, vivia se metendo em tretas, desafiava todo mundo, até a polícia, quando o pegavam fumando maconha. "A sua sorte é que você está do lado certo da arma", dizia ele ao policial. Um dia, ele foi convidado por um outro rapaz da nossa quadra, que chamaremos de R, para tomar banho na piscina de um colégio, lá pelo lado da L2. Estavam muito bem, falando merda na água, quando apareceu o segurança do colégio querendo saber o que faziam ali. R disse que era sócio da piscina e C seu convidado. O segurança era um sujeito de uns 50 anos, magro, alto, ex-militar em muito boa forma, que disse: "Ok, você eu conheço R, mas você sabe, não é permitido tomar banho aqueles que não são sócios. Peço que seu amigo saia da piscina imediatamente!"
    C esquentou, saiu da água cheio de imprecações: "Tá pensando o quê, ô coroa! Eu te encho de porrada!" O milico só limitou a aplicar-lhe um violento "telefone" e C caiu desmaiado ali mesmo. Foi socorrido pelo próprio segurança.

    A vida é bem mais feia e complicada do que nos filmes, romances e quadrinhos.

    Terminam aqui as minhas reminiscências por hoje.

    Deixo com vocês um desenho encomendado e já entregue faz tempo.


    Fiquem todos bem









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  • 01/21/18--16:17: A MARCA DO ZORRO.


  • Amadas e amados, boa noite!

    Esta semana, enquanto trabalhava eu via um vídeo no Youtube falando sobre o atual cenário de quadrinhos nacionais e refleti um pouco a respeito, entretanto, dividir meus pensamentos com vocês terá que ficar para uma outra oportunidade (semana que vem, quem sabe?) pois não tive tempo de maturar um texto decente. Incrível como o tempo parece encolher a cada dia!

    Um admirador do meu trabalho, de Brasília, me encomendou uma arte do Zorro, personagem que tive o maior prazer em executar, posto que foi uma das minhas alegrias na infância. Eu não perdia um único episódio quando passava na tv e devorei os poucos quadrinhos que me chegaram às mãos (detalhe, só recentemente eu fiquei sabendo que quem desenhava as aventuras do justiceiro mascarado era o brasileiro Walmir Amaral -  http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,walmir-amaral-o-eterno-heroi-da-era-de-ouro-dos-quadrinhos,1575794).

    Evidentemente fizeram vários filmes com este herói, acho a versão com o Antônio Banderas muito decente, contudo, quem eternizou - pelo menos para mim - o vigilante no período que a Espanha colonizou aquela parte da América, foi o Guy Willians na década de 50, produção de Walt Disney. Ainda hoje uma série que não perdeu a força. Dom Diego (Zorro), Bernardo (o fiel ajudante mudo), Dom Alejandro, Sargento Garcia, Cabo Reis, Capitão Monastério, o magistrado, o misterioso Águia...fantástico! O tal de Batman deve ter aprendido com o Zorro a ser um playboy mulherengo e beberrão durante o dia e fazer justiça a noite.

    Pra me inspirar assisti alguns episódios no Youtube e fui atrás da biografia do Guy Willians, que uns anos mais tarde seria o professor Robinson de Perdidos no Espaço. Inacreditável o fim que ele teve.

    Minha homenagem a este grande herói que enterneceu a minha infância.



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  • 01/28/18--18:14: ESBOÇOS APENAS.




  • Mais um dia sem tempo para escrever um texto como eu gostaria.


    Tenho recebido umas encomendas de clientes americanos. Não é lá essa grana que eu gostaria mas ajuda a pagar as contas.


    O difícil é acertar o tom das ilustrações. Vários esboços se fazem necessários até que o cliente aprove.


    Até outro dia!


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    Nasci em São Paulo no ano de 1962. Meus primeiros anos de vida foram vividos com meus avós maternos pois meus pais, sem uma casa, ainda lutavam duro pra nos trazer o sustento a cada quinze, vinte dias.
    Meu avô veio de Strasburgo (França) logo depois da primeira guerra e se estabeleceu no interior paulista construindo casas. A lembrança que tenho dele é que era calado e rude com minha avó. Esta por sua vez não perdia a oportunidade de me castigar com surras fosse pelo que fosse. Ela tinha a mania de frequentar velórios e eu sempre era levado junto. A morte, parece, sempre me acompanhou de perto. Mesmo assim eu amava esta avó com amor incondicional.
    Meu pai também se revelou um pesadelo assim que fui morar com ele. Por tudo isso, eu penso, me tornei arredio e tímido, com grande dificuldade de me adaptar em qualquer meio. Na infância os valentões (sempre eles) eram como cardos dentro dos sapatos. Eu odiava a escola. Meus primos diziam que eu era baixinho e feio. Vivia apanhando dos professores e dos meninos mais velhos. Eu nunca dizia nada em casa. Achava que estava sozinho no mundo.

    As histórias em quadrinhos entraram cedo em minha existência e foi ali que descobri uma forma de escapar da vida. As primeiras edições que tive acesso foram as HQs da Disney e do Maurício de Souza. Não tardou para chegar às minhas mãos as publicações da Ebal, uma editora maravilhosa que nos trazia Tarzan (o meu preferido), Lone Ranger, Cisco Kid, do argentino José Luis Salinas, Príncipe Valente, de hal Foster, Jim das Selvas e Flash Gordon de Alex Raymond, além dos heróis da Marvel e DC. Isso sem falar das publicações da Globo, a maior concorrente da Ebal, com histórias do Spirit, Fantasma, Mandrake, Dick Tracy, Sobrinhos do Capitão e muitos outros. Não sei qual editora publicava Riquinho, Tininha, Bolota e Brotoeja, mas eu devorava esses gibis, juntamente com Gasparzinho e Brazinha. Sim, claro, Luluzinha e Bolinha!

    Claro que eu nunca tinha dinheiro para comprar isto, eu lia na maioria das vezes na cara dura na própria banca de jornal no centro velho de São Paulo ou quando alguém menos cruel se dispunha a me emprestar.

    Com Tintim (que eu lia numa biblioteca pública) eu viajava o mundo e até ia para a lua, então surgiu o terror da Kripta e não muito depois os mundos fantásticos da Metal Hurlant. Eu me divertia com Mortadelo e Salaminho, Asterix e Mad (sempre lendo as edições dos poucos amigos que tive).

    Talvez por não morar em São Paulo eu não tive acesso ao que era produzido no Brasil com suas HQs de terror e sexo. As edições da Spektro e Calafrio eu só vim conhecer melhor nos fins dos anos 80.

    Isso tudo, acredito, me incentivou a desenhar, mas eu fazia coisas só para mim mesmo e uns pouquíssimos companheiros de escola, nunca me imaginei fazendo disso uma profissão, acho que por esta razão eu nunca me preocupei em me lapidar cedo, buscar recursos, desenhar melhor, eu comecei muito tarde nisto tudo.

    Foi nos tormentos da vida no Rio de Janeiro que passei a me preocupar com o que eu faria do meu futuro e foi na arte que encontrei um rumo. Eu comecei a ter melhor noção de anatomia, luz e sombra, dobras de tecido, reproduzindo a lápis modelos de revistas de moda e maquiagem. Em contrapartida nunca me preocupei com perspectiva (algo que ainda hoje me dá dor de cabeça), prédios, carros e essas coisas. Nunca tive paciência para desenhar instrumentos musicais, móveis, mesas e cadeiras. No estúdio do Edgar Cognat esta paciência teve que ser duramente desenvolvida, eu precisava de disciplina e ali encontrei alguma. Mas não durou muito.

    Tive meus momentos de "artista" trabalhando no SENAC em Brasília, mas foi quando finalmente eu regressei a São Paulo e me dar conta de que haviam quadrinistas talentosos que me senti desafiado a ser melhor do que eu pensava que eu era. Foi um duro caminho. E para cada um artista gente fina que eu encontrava (Arthur Garcia, João Pacheco, Franco de Rosa) eu me esbarrava com um bando de prepotentes que se achavam deuses. Com o passar do tempo vi que isso não se limitava só aos desenhistas, mas também editores e jornalistas especializados no assunto.

    Mesmo com isso me retraindo eu procurei fazer meus quadrinhos nas frias madrugadas paulistas (neste tempo já influenciado pelo underground europeu - tá, um pouco de americano também, Crumb, por exemplo) sempre tentando aprimorar minhas narrativas.


    Terminei meu último Zé Gatão (DAQUI PARA A ETERNIDADE) em 2003 e depois disso fiz umas poucas HQs curtas com o personagem e mais nada! Hoje, volto a trabalhar em uma nova aventura do felino nos meus intervalos de pagaluguel, tento fazer da mesma forma instintiva que fiz o meu primeiro álbum, tendo um texto como fio condutor e inventando pelo caminho, tentando me divertir e desabafar no processo criativo.
    Nesta postagem, alguma cenas do que venho produzindo.


    Vejo alguns programas no Youtube que falam sobre quadrinhos nacionais para me sentir antenado e noto que o que vem sendo publicado hoje é bem diferente do que eu lia na infância. Tudo tem veia de adulto, de autobiográfico, com desenho tosco, cartunizado. Não tenho vontade de ler.


    No meio disso tudo sinto que não há publico e espaço para mim, mas mesmo assim eu vou fazendo um quadrinho hoje, outro na próxima semana, quando der. Um dia fica pronto. Talvez eu publique eu mesmo uma tiragem pequena para quem quiser ler.


    Um fã me procurou para perguntar porque eu não compareço no FIQ ou na CCXP. Ele queria saber se eu sofria alguma perseguição por ser cristão e reaça de direita. Eu respondi a ele que não era isso, não, eu não era convidado pra esses lugares porque os organizadores não sabem que eu existo, nunca ouviram falar de mim e que isto não me importava. Não me sinto inserido neste mundo, não faço parte dele, nunca fiz. Os quadrinhos nacionais que são publicados hoje pelas editoras nada tem a ver com o que eu procuro fazer em Zé Gatão. Eu ainda sofro as influências de Corben, Wrigtson e Liberatore. Os atuais gibis tem muito pouco disso.


    Será que nos encontramos na próxima semana? Deus sabe.
    Beijos a todos!

         






















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    Não estou em casa e uso um computador alheio, o teclado é um tanto diferente por isto me atrapalho um pouco para digitar. Mas tudo bem, a postagem será breve.

    Recentemente trabalhei em uma encomenda para um cliente dos EUA. Sabem essas figuras antropomórficas grotescamente musculosas que costumam adornar as paredes de academias de musculação e também camisetas dos entusiastas da cultura física? Não? Bem, não faz mal, a arte que executei, ilustrada neste post, mostra a que me refiro.

    O primeiro esboço que fiz do personagem, apesar de exageradamente grande, ainda ostentava uma certa elegância. Qual o quê, a cada mostra o cliente pedia para eu aumentar o volume muscular e também a vascularização (postei os sketches a umas duas semanas atrás, lembram?). Cheguei a pensar que a cabeça ia sumir em meio a tantos músculos. Por fim ele deu sinal verde e pude pintar.

    Eu até cheguei a gostar do resultado. Recebi pelo serviço e a arte está a caminho dos states.


    Um abraço afetuoso e apertado a todos.





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  • 02/18/18--18:25: RECARREGANDO AS BATERIAS.


  • Passei os últimos dias totalmente desconectado do trabalho e acessei a internet só para me comunicar com minha esposa e ver se havia algum e-mail urgente. Nem meus pequenos cadernos de desenho (que eu chamo de "crazy sketchbooks") que geralmente eu levo a lugares longe do meu estúdio eu quis contato. Tudo isto para fazer uma visita à minha mãe e meus dois irmãos que moram em Brasília. Descansar a cabeça da rotina diária era tudo que eu precisava ainda que por um breve tempo. Estar com minha mãe foi uma benção que pedi a Deus a muitos meses e as preces foram atendidas. Nem preciso dizer o quanto valeu. Mal liguei a televisão por lá, ouvia falar do Carnaval só por alto.

    Foi muito bom rever Brasília, seus prédios deitados, suas árvores, seu verde, seu céu de nuvens baixas, mas tudo me soa como se a cidade fosse uma mulher por quem sempre fui apaixonado e ela tivesse me esquecido para sempre.

    Recebi visita do meu old pal Luca Fiuza e do Nestablo Ramos Neto, grande artista e companheiro de mais de 20 anos. Foi bom revê-los e falar sobre os velhos tempos já que os atuais tem se mostrado difícil para todos - seria a crise do país ou a idade que já pesa sobre nossos ombros? - assuntos sobre filmes, quadrinhos, literatura, séries e nossos trabalhos pontuaram estas conversas.

    André Araújo, um médico pediatra, amigo e admirador do meu trabalho me convidou à casa dele e fui com gosto pois a coleção de quadrinhos dele prometia ser grande e eu não me decepcionei. Fui carinhosamente recebido por ele e sua família. Passamos algumas horas falando sobre o assunto que nos unia: HQs e coisas afins. Conferis os gibis raros dele, estatuetas e muitos book arts. Para checar todo o acervo eu precisaria de muito mais tempo e eu tinha que voltar para casa para fazer as malas e retornar a Pernambuco.

    Ele quis tirar umas fotos para registrar o encontro e aqui estão.


    Voltei e ainda me sinto preguiçoso, retorno às artes aos poucos e tenho muita coisa a fazer, felizmente.

    Mas me sinto estranho, cada vez mais como se eu não tivesse pátria, como se não pertencesse a nada nem a lugar algum.

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  • 02/25/18--13:35: SPACE GHOST

  • Não faz muito tempo, alguns comentários numa postagem qualquer do Facebook me acenderam uma ideia: revisitar alguns heróis da minha infância, aqueles da Hanna Barbera que me deixavam eletrizados diante da tv. Mightor, Dino Boy, Herculóides, Frankenstein Júnior e outros. Ando totalmente sem tempo para os trabalhos pessoais (vejam, nunca mais rabisquei em meus Crazy Sketchbooks e a nova aventura de Zé Gatão está interrompida) mas não resisti e parei o que estava fazendo para cometer minha primeira homenagem a uma das imortais criações do Alex Toth: o Fantasma do Espaço. Desenho rápido, sem muitas firulas.
    Tenho planos para outros mais, quem sabe os Flintstones? Scooby Doo? Ficariam legais no meu traço? Digam aí nos comentários.

    Beijos a todos e até pra semana, se Deus quiser!

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    Richard Corben é um dos maiores artistas de todos os tempos, um dos que mais influenciaram a minha forma de fazer quadrinhos, mas não é para falar exatamente dele que estou aqui, mas para comentar a respeito de uma das melhores obras que ele realizou: BLOODSTAR.


    Quem me acompanha a muito tempo sabe que esta série que batizei de "os melhores quadrinhos de todos os tempos" não tem como objetivo destrinchar este ou aquele comic, mas falar o que ele significou em minha vida e porque eu acho um dos mais significativos do mundo (pela minha ótica).


    Bloodstar é uma adaptação do conto "The Valley Of The Worm" de Robert E. Howard, o mítico criador do Conan, e narra a história de um guerreiro aesir que nasce com um sinal na testa que lembra uma estrela vermelha, daí seu nome: Bloodstar. A narrativa começa com o fim da civilização causada por uma estrela que desencadeia desatres naturais em nosso planeta. O mundo acaba e os sobreviventes voltam ao estado de barbárie. Tribos se formam e duas delas guerreiam entre si: Os pictos e os aesires. Num destes confrontos dois inimigos mortais acabam se tornando como irmãos, Bloodstar e Brom, o picto. Nesta graphic novel magistralmente ilustrada por Corben temos romance, traição, criaturas fantásticas, muita aventura e violência até tudo culminar com o duelo entre o protagonista e um gigantesco verme conhecido como o Rei do Abismo do Norte. Uma história trágica.


    Veio a público pela primeira vez em 1976 numa edição limitada e numerada.

    A cópia que tenho é uma edição espanhola e é colorida (não pelo próprio Corben, infelizmente, mas segue seus métodos de colorização). Na minha opinião a cor matou um pouco da força das ilustrações do livro.
    Encontrei meu Bloodstar em uma pequena livraria situada dentro de um cineclube na Rua Augusta em São Paulo. Era bastante caro na época, não só por ser um item raro, mas também por causa de uma moeda forte, a peseta, em relação ao nosso dinheiro. Eu não podia perder aquela oportunidade, pedi ao meu pai e embora estivéssemos muito apertados neste período ele me deu a grana para comprar o álbum.


    Bloodstar me marcou muito no início dos anos 90, tinha todos os elementos que eu gostava numa aventura: bárbaros, mulheres sensuais, javalis, cobras e tigres pré históricos, além do final épico. Falar muito é chover no molhado, só lendo para se certificar.

    Nunca foi lançado no Brasil e mesmo nos EUA e Europa teve poucas reedições e está esgotada a muitos anos, o que é uma pena para os amantes de quadrinhos sensacionais.

      
     


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  • 03/11/18--16:57: DINO BOY.
  • Ando trabalhando cada vez mais lento. Talvez a idade comece a pesar ou pode ser o estresse causado por uns problemas difíceis de lidar. A cerca de duas semanas atrás passei por momentos horríveis. Tenho artes para entregar mas elas vão ficando na fila. Tudo a seu tempo é o que digo a mim mesmo tentando assim um consolo para a sensação de vida desperdiçada.

    Meus projetos pessoais seguem parados, infelizmente.

    Nenhuma notícia sobre a biografia em quadrinhos do Edgar Allan Poe que ilustrei. Começo achar que não vai sair.

    Ontem vi um filme com o Jackie Chan e o ex - James Bond Pierce Brosnan chamado, O Estrangeiro. Legal!

    Assisti também a um filme japonês baseado num mangá (e anime) chamado Fullmetal Alchemist. Chato!

    Li um Tex colorido chamado O Profeta Indígena. Muito bom! E também o primeiro número de um mangá intitulado Pluto que promete bastante.


    A arte de hoje é a minha versão para um clássico da Hanna Barbera, Dino Boy. Conforme for aparecendo tempo entre meus trampos pagalugueis eu vou rabiscando estas homenagens às animações que encantaram a minha infância.

    Fiquem com Deus!      

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  • 03/19/18--07:57: O LEITOR.

  • Eu fui um leitor voraz em minha juventude. Desde cedo gostei de ler. Claro, não lia de tudo, existem narrativas muito pesadas para um infante, os clássicos da literatura brasileira mesmo eu só fui gostar depois de adulto - ainda tenho péssimas lembranças de O Guarani, de José de Alencar, que tive que ler em um fim de semana para fazer uma prova de literatura na sétima série - mas alguns livros de Júlio Verne, H G Wells e H P Lovecraft ainda ecoam em minha memória, eu os li a muitos anos mas Miguel Strogoff, O Homem Invisível e Ar Frio ainda me lembro de cada palavra.

    Existem livros que me marcaram muito na infância: "Doidinho", de José Lins do Rego, "Meu Pé de Laranja Lima" de José Mauro de Vasconcelos e "OLhai Os Lírios Do Campo" de Érico Veríssimo. 

    Na fim da década de 70, no Rio de Janeiro, os livros velhos dos sebos foram como botes que me ajudaram a atravessar as águas tortuosas daqueles dias: os contos do Poe, Madame Bovary, de Flaubert, Tragédias, Sonetos e Comédia, de Shakespeare, alguns da Agatha Christie e vários livros contemporâneos que a editora Abril lançava naqueles tempos, coisas como O Poderoso Chefão, de Mário Puzo, Papillon, de Henri Charrière, Love Story, O Dia do Chacal e muitos outros.
    Foi por este tempo que li os clássicos do gótico, Drácula e Frankenstein. O Médico e o Monstro só li recentemente.


    Na década de 80 me apaixonei por Dostoievski, Tchekov e Charles Bukowski. Mas a medida que fui envelhecendo, as responsabilidades foram aumentando e meu tempo diminuindo, meu ritmo desacelerou.
    Continuei a comprar livros e muitos ainda estão aguardando ser abertos. Hoje, quando muito, leio uma ou duas páginas de um romance por dia; um capítulo inteiro é muito raro. Resolvi reler As 1001 Noites o ano passado e só hoje acabei o primeiro volume. Mas eu prossigo devagar, lendo meus livros, esses bons amigos de todas as horas.


    Queria muito ter lido os pulps das décadas de 30, 40 e 50, mas naquele período específico. Deve ter sido emocionante para as pessoas daqueles tempos. Ainda cheguei a pegar algumas novelas de rádio, na infância e digo: havia muita emoção naquilo!

    Este texto é o pano de fundo para esses estudos que foi uma encomenda de Doc Savage, O Homem de Bronze, que teve seu momento áureo durante os anos 30 nos pulps americanos.



         

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  • 03/25/18--17:30: A ESCRAVA ISAURA (CENA 14)

  • A internet realmente facilitou demais a divulgação do trabalho dos artistas com seus sites, blogs e agora com as redes sociais. Tenho páginas no DeviantArt, Pinterest e pelo menos umas cinco no Facebook. Algumas pessoas tem me cobrado pra eu abrir uma no Instagram, só não fiz ainda por causa de um pequeno aborrecimento. Eu realmente pareço lutar contra mim mesmo. Sou péssimo divulgador do meu trabalho. Tenho uma eterna dúvida se não sou um embusteiro. Acho que as coisas que crio tem algum mérito, sim, mas...não sei, são tantas dificuldades que enfrento em relação a elas que me pergunto se sou mesmo o que as pessoas acham que eu sou. Eu tenho muitos pudores para mostrar meus rabiscos. Isto me lembrou uma história que me aconteceu em Brasília: certa vez, nos idos dos anos 80, um grupo musical evangélico me pediu para criar uma arte para seu primeiro LP. Não tinham verba para me pagar e eu disse, ok, eu faço. Foi desafiante. Tive uma ideia interessante. Pintei a óleo numa tela, um rapaz numa perspectiva debaixo para cima tocando sax com notas musicais subindo em direção ao céu cheio de nuvens, numa momento estas notas multicoloridas criavam asas e adentravam uma abertura nos céus em louvor a Deus. O original desta pintura nunca voltou às minhas mãos e a arte na capa do disco ficou meio desfocada, talvez culpa de algum idiota que foi o diretor de arte ou de quem fez a reprodução do desenho. Ganhei um disco como pagamento e quem sabe ele esteja no meio dos vinis que ficaram na casa da minha mãe. O caso é que a pessoa que serviu de modelo para a pintura e eu certa vez, andando pelo Venâncio 2000, entramos numa loja de discos gospel e o cara perguntou pelo LP da banda. Mostraram a ele. Ele se envaideceu por se reconhecer na capa do disco e se apresentou como personagem da cena e fez o que eu implorava no meu íntimo para que ele não fizesse: dizer que eu era o autor da obra. Aquilo me enfureceu embora eu nada tivesse dito. Não foi só porque a reprodução da arte estava horrível, mas aquilo me expunha de alguma forma. O irônico é que o cara não foi capaz de comprar o disco em que ele fora modelo.    

    Quando era desconhecido (bem, ainda sou um desconhecido) nos eventos, perguntavam quem eu era, eu não me apresentava como ilustrador ou autor de quadrinhos, eu só respondia: "ah, eu sou apenas um cara, alguém que gosta de HQs, por isto estou aqui." Outros passavam por cima de mim e diziam: "ele é artista, criou um personagem de quadrinhos chamado Zé Gatão!" Alguns conheciam e me congratulavam, outros demonstravam interesse em conhecer e outros ainda, nem tanto.
    Eu nunca quis aparecer em público, por excesso de timidez ou de imbecilidade, o fato é que é que dificilmente terei a fama de alguns, porque não suporto o que eles dizem ser absolutamente necessário: aparecer sempre,  em todos os lugares possíveis. Ora, eu desenho exatamente para não ter contato com o mundo, esta ligação deveria ser feita somente através da arte.

    Mas eu tento - de verdade! Quando possível eu vou aos eventos e me esforço para manter meus contatos pela web sempre atualizados, tanto aqui quanto pelo Facebook (aquele Google + eu nem sei como mexer nele direito). 

    O que me fez criar um blog, ter páginas em redes sociais foi uma entrevista que li de uma editora da Dark Horse convidada pelo FIQ a alguns anos, ela dizia que os editores procuravam talentos a través destes canais, que era importante os artistas se mostrarem através destas mídias. Seria mesmo? Bem, eu já fiz a minha parte e nenhum editor gringo me procurou. Acho que seria um milagre se isto acontecesse, mas falam que milagres acontecem, eu não duvido, mas algo em mim diz que isto é só para quem merece, o que definitivamente não é o meu caso.


    A arte de hoje é mais uma cena de a Escrava Isaura.

    Beijos a todos!











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    Amadas e amados, boa noite!

    Tiveram boa Páscoa? A minha foi excelente, a tempestade que me acometeu no início do mês de março deu uma trégua e tenho sorte que a Verônica é uma grande chef de cuisine e faz verdadeiras iguarias com qualquer ingrediente que lhe caia nas mãos. Tivemos um peixe (sexta) e bacalhau (hoje, domingo) que foi impossível não repetir o prato!

    Os trabalhos continuam vagarosos, assim como o retorno deles, mas vamos vivendo, eu tento não refletir sobre o dia de amanhã; não mais.

    Esta semana eu pensei seriamente em fechar o meu Facebook, aquilo tem feito pouco sentido para mim. Diariamente recebo quase 30 solicitações de amizade, a maioria de pessoas que pouco ou nada tem a ver com arte, logo terei 5.000 amigos e me pergunto: para quê? Só recebo comentários e os tais "likes" em minhas postagens ocasionais de umas cento e tantas pessoas; sempre; as vezes nem isso. Recebi um pedido de amizade de um cara que trabalha na Editora Dark Horse. Eu nunca passo mensagem, não tenho tempo para isso e nem sei o que dizer a alguém cujo rosto não conheço, mas para este eu escrevi um pequeno texto descrevendo o que faço, o que já publiquei e tal, afinal é um cara que trabalha na terceira maior editora dos EUA e quem sabe não me renderia uma publicação por lá (sonhar ainda não paga imposto, não é?). Ele nunca mandou resposta.
    Existem pessoas muito gentis, é claro, que agradecem por eu ter aceitado suas solicitações, que enviam mensagens enaltecendo meus traços e eu não sou imune a elogios, e só por conta destes poucos é que eu continuo por lá, além de ser sempre uma vitrine a mais e também porque já fechei negócios ali.
    Eu nunca tenho tempo para ficar visitando páginas e grupos a que sou adicionado, tenho certeza de que há coisas muito legais para conhecer mas, ou faço isso ou ganho meu pão de cada dia. E quando quero relaxar um pouco e rolo o mouse pelo feed de notícias me deparo com as publicações merda de pessoas defendendo o Lula e o PT, gente mesquinha que se julga capacitada para falar da morte da vereadora do PSol e propondo o fim da PM! Isso sem falar no nome de Cristo sempre sendo blasfemado pelos ateus de plantão! Leio absurdos por parte de artistas cujo trabalho admiro e sinto náuseas! E não é um ou outro, não, são quase todos! Não comento nada, minha página é para mostrar arte e falar sobre arte. Política e religião não é possível debater digitando à néscios. Isso tudo gera cansaço.
    Uma coisa que percebi em redes sociais é o número de artistas que se multiplicam day by day! Caras e moças que nunca ouvi falar, nem vi publicações deles e veem a si mesmos como verdadeiros gênios criadores! Mas estes espaços servem para isto mesmo, para as tribos trocarem figurinhas e ficarem se lambendo. Acho até que hoje existem mais quadrinistas (a maioria ruim) que pessoas para ler o que é publicado!  Embora eu não admita sei que sou peça desta engrenagem e isto me causa perplexidade, como no passado eu não me adequava aos meios onde me via inserido, hoje continuo este corpo estranho.
    A que conclusão chego? Não sei, nenhuma, são apenas desabafos, para isto me serve este espaço: falar e falar somente. Sigo caminhando na estrada, descalço, mas sempre em frente.


    Os desenhos de hoje são detalhes de páginas de ZÉ GATÃO - SIROCO que estou desenvolvendo e no momento, infelizmente, parado.

    Beijos a todos e até semana que vem se Deus permitir!









     

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  • 04/08/18--16:01: FOTONOVELAS.

  • Os livros sempre foram a mais genuína forma de me desconectar da realidade por mais que a realidade estivesse inserida neles. Sempre gostei de ler, não é nenhuma novidade, canso vocês ao repetir isto aqui. Dentre as tantas coisas que consumi em termos de leitura existem as fotonovelas. Isso mesmo, já li muita fotonovela! Verdade que não eram as minhas leituras preferidas, se tivesse que escolher entre um livro de bolso desses que infestavam as bancas de antigamente e uma fotonovela, eu ficaria com o livro de bolso. 
    Não lembro exatamente qual foi a primeira fotonovela que li na vida, mas recordo de uma lá pelos idos de 1974 (acho que era esse o ano), que me marcou bastante, não ao ponto de me lembrar do enredo, mas por associá-la a uma música do Odair José que tocava no rádio - a música em questão não era a da "pílula" ou do cara que queria tirar a garota da vida de prostituição, mas uma mais intimista chamada "Lembranças" (aliás, muito boa música!) - rememoro também que eu pintei a calça de um dos personagens de vermelho com uma caneta hidrocor vermelha. Foi um período melancólico da minha vida em São Paulo.
    Certa vez, não sei dizer exatamente onde e quando, li uma narrativa em fotos que falava sobre uns fantasmas em uma casa, aquilo era verdadeiramente arrepiante!


    O período que mais li este tipo de publicação foi por volta do ano de 1977 quando meu pai arrendou uma pequena banca de jornal para tirar uma grana extra, que ficava na SCRLN 711, em Brasília. Foi meu primeiro emprego, nunca ganhei um salário trabalhando lá mas li muita coisa legal. Fora dos momentos de pico, que geralmente era depois das 14 horas até as 18, eu tinha muito material à disposição. Só não curtia muito os jornais, e eles nem duravam muito, nosso reparte era pequeno e normalmente acabava logo. Depois de devorar os quadrinhos e as revistas - tanto as de teor jornalístico como Manchete e  Realidade bem como as de fofoca de televisão - sobravam, claro, as fotonovelas. A que mais fortemente vem à memória era a Jacques Douglas com o falecido galã italiano Franco Gasparri. Eram tramas policialescas misturadas com romance e alguma comédia. Era interessante mas tinham algumas inseridas na Revista Grande Hotel que realmente chamavam a atenção, principalmente quando o enredo entrava forte no suspense, onde a vilania por vezes se sobrepunha ao bom mocismo do protagonista e dava até pra roer as unhas durante a leitura. Os italianos eram muito bons neste tipo de escapismo.


    Certa vez, eu e toda a família fomos passar um fim de semana numa chácara no interior de Goiás, era um desses lugares onde não havia conforto, nenhuma rede para se espreguiçar ou coisa do tipo. Fazia calor e a poeira do lugar secava a garganta, o melhor lugar para ficar durante a tarde seria no Opala do meu pai mas eu não podia ligar o rádio para ouvir música - para não acabar com a bateria do mesmo - e nem suportaria por muito tempo, a quentura era muito forte. Eu era o mais velho e tinha que tomar conta dos irmãos menores (eles não vão se lembrar disso, eram muito novos). Até que dentro de uma caixa com umas tralhas que tinha na casa havia uma fotonovela. Era de formato grande, não era lombada quadrada, era de grampo. Não tinha capa e faltavam as quatro primeiras páginas, consequentemente as quatro últimas também. Ou seja, não tinha começo nem fim, mesmo assim, para passar o tempo eu devo tê-la lido umas quatro vezes, pois era uma fotonovela danada de boa!


    Claro que nós os brasileiros fizemos as nossas fotonovelas com os galãs da época, atores de novelas e cantores populares, mas nem de perto chegavam aos pés das edições italianas.


    Acho que esse tipo de cultura passou, não vejo mais estas publicações em circulação; caiu de moda? Por que será? Desgaste do gênero? Nos tornamos menos sonhadores e românticos? Sabe-se lá!


    Essas fotos eu roubei de outros blogs sobre o tema fotonovelas, mas nem li o que diziam.

    Beijos a todos e até semana que vem com mais um besteirol da minha parte.






























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  • 04/15/18--14:26: A ESCRAVA ISAURA (CENA 15).
  • Boa noite! É bom estar com vocês. Na verdade eu queria me sentir com o mesmo gás de quando comecei este blog, eu gostava de registrar meus acontecimentos cotidianos, rememorar fatos da infância e juventude mas parece que me desgastei. Muito do que eu disse aqui parece que foram palavras ao vento somente; claro, sempre tem alguém que se identifica, mas é um número tão reduzido que pensando bem não vale mais a pena eu me abrir, pelo menos esse é o meu pensamento nesses dias do fim. Dias do fim? Sim, sinto e vivo como se não houvesse um amanhã. Alguns anseios se perderam no caminho, não sei dizer exatamente quando, possivelmente em algum ponto perto da partida do meu pai, quem sabe até um pouco antes. Talvez isso seja bom, não criar expectativas em relação a esse mundo nem esperar nada de ninguém. Sabemos por Jesus que este não é nosso lar, é apenas um ambiente de provações. Sobre o porvir eu também tento não pensar a respeito, deixo nas mãos Dele, eu tento fazer a minha parte. Não é culpa de ninguém eu me sentir assim, faz parte da minha natureza, só vai se intensificando a medida que envelheço.

    Meus trabalhos continuam e eu viajo neles, é a porta que Deus me deu para eu escapar da realidade. Tenho livros e quadrinhos para serem publicados - todos já foram pagos - e nem sei se um dia chegarão às mãos do público, muito material inédito que ninguém pôs os olhos.

    Hoje eu procurava uma arte criada para um clássico e me deparei com os originais da biografia do Edgar Allan Poe, estavam em um envelope plástico. Não coloquei verniz fixador naquelas folhas, não tinha na época, esta obra continua inédita, logo essas folhas vão amarelar e, como tudo na vida, criar bolor e virar pó com o tempo. Este pensamento me envolveu de tristeza. Mas é necessário que assim seja. Tudo passa, tudo há de passar.


    Mais uma imagem para A Escrava Isaura, mais um livro que continua sem publicação.

    Uma boa jornada semanal a todos!

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  • 04/22/18--16:34: KALI.

  • É noite e neste preciso momento cai uma chuva caudalosa. Gosto disso. Quando estou em paz em casa, no silêncio do meu estúdio, nada me embala a alma mais do que o som da chuva lá fora, nada me enternece mais do que o dia cinza, nublado. Melhor que isto só se eu estivesse no escuro do meu quarto, deitado, ouvindo os pingos baterem na janela. Lembro dos tempos chuvosos de Brasília, quando morávamos na SQS 202, nos idos dos anos 80. No ambiente, dormíamos eu e meu irmão Gil, no outro quarto, Rodrigo e André. Minha cama ficava próxima à janela e nas noites de borrasca, debaixo das cobertas, eu me regozijava com o som dos ventos. Via a grandiosidade de Deus e Sua criação.
    É bem verdade que aqui nesta cidade, neste bairro, a tormenta causa estragos, as ruas alagam, o escoamento é precário, é muito ruim para quem está na rua; com muita intensidade ela causa quedas de energia ou a tv a cabo sai do ar. Mas neste instante tudo está ok, desliguei o som do notebook só para ouvir a chuva que cai sem piedade, como quem diz: "demorei para chegar, mas aqui estou, não será possível ficarem indiferentes à minha presença!"

    Estou na minha rotina, ido às pequenas compras, trabalhado nas encomendas que me fazem. Lendo alguns quadrinhos antigos, parei de consumir novidades, não há dinheiro e tampouco interesse, embora veja surgindo muita coisa que parece boa, mas não há nem espaço físico em minhas estantes. Chega uma hora em que a gente tem que parar um pouco. Minha produção pessoal segue devagar, um pouquinho sempre que é possível. Tenho ouvido pouca música, há momentos que me dou um tempo, música para mim é envolvimento total, uma coisa de alma. Não ando cem por cento para me inebriar com belas melodias, é como aquele vinho que se guarda para ocasiões especiais.


    A ilustração de hoje foi encomendada por um bom amigo que ama artes fantásticas. Quem tiver interesse em ver a cena sem censura pode clicar no link abaixo:

    https://eduardoschloesser.deviantart.com/art/Commission-Kali-and-Humans-740866368

    A chuva continua e parece não ter intenção de parar tão cedo. Vou encerrar aqui e dar um pouco mais de atenção a ela antes de voltar ao novo desenho em que trabalho.

    Fiquem todos com Deus!